Literatura

Resumo do conto AMOR, de Clarice Lispector

Resumo de Amor Clarice LispectorResumo de Amor, Clarice Lispector

“Amor” trata-se de um conto presente na obra Laços de Família, da autora Clarice Lispector. Essas breves narrativas foram publicadas em 1960. A narrativa retrata a vida de uma pessoa que experimenta no cotidiano uma epifania que a conduz à refletir sobre si mesma e sobre o mundo.

O livro Laços de Família recebeu o prêmio Jabuti de Literatura em 1961.

Este conto é leitura obrigatória no vestibular da UNICAMP e está entre os melhores e mais profundos contos da autora. Por isso fizemos o resumo e a análise do conto Amor.

Treine para o vestibular com nosso Simulado Gratuito.

Veja o nosso GUIA COMPLETO do vestibular UNICAMP

“Amor” trata a questão existencial humana, principalmente da mulher. Clarice Lispector usa a epifania para isso, ou seja, um grande acontecimento ou revelação, uma tempestade de pensamentos e reflexões sobre a realidade e sobre a vida.

Características das obras de Clarice Lispector

  • Literatura introspectiva: O foco está no interior das personagens, no que elas pensam e sentem. A atenção não está no mundo exterior, mas no que se passa na mente das personagens.
  • Enfoque psicológico: A mente de cada um é revelada, seus pensamentos e dilemas. Nem sempre o pensamento é racional, muitas vezes temos em mente um conjunto de ideias, sensações, delírios, loucuras, etc.
  • Fluxo de consciência: A marca dos textos de Clarice é que são caóticos. Não se trata de uma linearidade racional, mas de um fluxo de ideias.
  • A autora usa frases simples, lógicas e racionais, mas com significados profundos que buscam desestabilizar o leitor.
  • Pode-se dizer que a autora segue a linha da literatura existencialista, ou seja, uma literatura que reflete sobre a existência humana. Vê-se também as seguintes características nesse tipo de literatura: cotidiano banal, o inusitado, epifania (grande revelação), reavaliação existencial e intuição.

Você consegue se organizar bem para estudar? Caso queira melhorar, baixe nosso plano de estudos gratuito.

Resumo de Amor de Clarice Lispector

Ana personagem de Clarice Lispector em Laços de Família

Temos resumos de muitas obras que caem no vestibular. Veja nossa lista de resumos aqui.

A “hora perigosa”: momento de descoberta, reflexão e inquietação

“Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. (…) Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos.”

Ana, a protagonista, é uma dona de casa, esposa e mãe que dedica sua vida à sua família, é uma mulher bem ativa, cuida bem da casa, mantém a ordem das coisas e mantém a mente bem ocupada a maior parte do tempo.

A HORA PERIGOSA tratava-se do momento à tarde que ela tinha para pensar em si mesma. Neste período ela tinha tempo para pensar sobre sua vida. Ela já não se reconhece a pessoa que fora antes do casamento.

Ela deixou a si mesma para se ocupar com marido e filhos. “Assim ela o quisera e escolhera” é uma frase bem repetida na obra para explicar a responsabilidade de Ana e justificar sua acomodação.

O narrador insiste que tudo na vida de Ana era bom. O relacionamento com o marido e com os filhos era bom. Tinham acabado de comprar apartamento, estavam um pouco sem dinheiro, mas a vida era boa.

Um cego mascando chicletes: epifania do cotidiano

Ana voltava para casa de bonde depois de ter feito as compras para o jantar. Ela tinha saído para comprar ovos, pois receberia os irmãos em sua casa. Estava perdida em pensamentos. Pensava sobre o presente e pensava sobre o passado. Era uma hora perigosa, afinal não estava se ocupando.

Estava assim quando uma visão abalou seu mundo interior. Ana viu um cego mascando goma. Este é o segundo personagem mais importante que destacamos neste resumo de Amor de Clarice Lispector.

Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Para a maioria das pessoas tratava-se de uma cena comum, pertencente ao cotidiano. Contudo, para Ana essa cena não passou despercebida. Ela, inclusive, deixou cair no chão suas compras.

Parecia que este cego da cena insultava Ana. Ele a incomodava e a tirava de sua paz alienada, confrontando-a com a dureza da vida e com a realidade sem máscaras.

Este momento é muito significativo e terá uma análise própria, que pode cair nos vestibulares.

Foi apenas um breve momento que lhe fez um estrago. Ana deparou-se com a falta de sentido e com a ausência da lei. Perdeu sua organização e controle. Pela primeira vez ela estava diante de “uma vida cheia de náusea doce”.

Passeio não planejado no Jardim Botânico: descoberta do mundo

Ana ficou tão perturbada que perdeu o ponto certo de descer.

Quando percebeu, gritou. O motorista freou bruscamente e os ovos que Ana trazia foram ao chão quebrando-se e escorrendo.

Ela preencheu a hora perigosa comprando ovos (representam a fragilidade da vida), na sacola que ela mesma tricotou (ela se colocou nessa posição).

Ana descobre o mundo com os ovos quebrando em Amor de Clarice Lispector

Vê-se nisso o significado da vida de Ana, quebrando naquele momento. Ela saiu do comodismo e notou o que estava ao redor, como uma mulher de azul ao seu lado, um casal de mãos dadas e uma mãe empurrando o filho.

Foi parar no Jardim Botânico, um dos principais ambientes que ressaltamos neste resumo do conto Amor de Clarice.

Ela contemplou a natureza, a vida selvagem nascendo, crescendo, apodrecendo e se renovando. Ela notou o mundo ao seu redor.

Vendo o jardim ela refletia sobre a fragilidade e força da vida.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada.

Ana saiu de sua casca e teve vontade de ajudar as pessoas daquele mundo cruel. Queria ajudar cegos, pobres e debilitados em geral, mas se sentiu impotente. Ana percebeu que o mundo é cruel sem deixar de ser belo.

Regresso a casa: estranhamento e dúvida

A “alma batia-lhe no peito.” .O mundo parecia sujo mas também parecia seu, parecia que a convidava a viver nele, a sair de onde estava.

Vale ressaltar neste resumo de Amor de Clarice Lispector, que Ana voltou para casa pensando que seu jeito de viver era louco. Tão espantada ela estava que mesmo quando o filho a tentou abraçar ela não se esqueceu do cego. Ela descobriu um mundo exterior para explorar, uma vida perigosa fora de casa, mas dinâmica e cheia de surpresas.

Ela se sentiu estranha em sua casa e teve fome de viver coisas diferentes. Contudo sentia-se culpada em abandonar marido e filho.

Ela deu um abraço em seu filho tão apertado que até o fez chorar e olhando pra ele disse:

“Não deixe que a mamãe te esqueça.”

Família e rotina: amor e entorpecimento

Nesta parte do resumo de Amor de Clarice Lispector vemos Ana recuperando a sensação de conforto ao jantar com sua família, incluindo irmãos, cunhadas e sobrinhos.

Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Ela voltava e viver serenamente ao lado deles e guardava na memória a alegria e a segurança familiar, sem se esquecer do lado terrível do mundo lá fora. Ia pensando quando ouviu um barulho vindo da cozinha.

Esse barulho era comum, vindo do fogão com defeito, mas mesmo assim ela levou um susto. Ela então correu para junto de seu marido dizendo: “Não quero que lhe aconteça nada, nunca!”. Ele a deixou tranquila, segurou em sua mão e a levou para dormir, novamente para o sossego da vida doméstica.

Assim o conto se encerra:

“Penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.”

Veja o conto “AMOR” de Clarice Lispector COMPLETO AQUI!

Se preferir, veja o PDF do livro Laços de Família aqui.

Análise e interpretação do conto “Amor” de Clarice Lispector

Já temos o resumo e análise de outra importante obra de Clarice: A HORA DA ESTRELA

A narração desse conto se dá em terceira pessoa, com narrador do tipo onisciente. Logo, ele possui acesso às emoções, sentimentos e até mesmo das conversas interiores das personagens.

A protagonista é Ana, uma mãe, esposa e dona de casa que cuida da família e das tarefas da casa. Trata-se da única personagem que maior detalhamento psicológico. Ainda assim há a participação do marido, dos filhos e de um tal homem cego visto por Ana pela janela do bonde.

A narrativa não dá detalhes dos espaços. A autora só nos menciona  três espaços: sua casa, o bonde e o Jardim Botânico, sendo os dois últimos os principais.

Significado do conto Amor

Ana representa cada dona de casa que se casou e constituiu família. Passou a cuidar do mundo que é sua casa e se esqueceu do mundo exterior.

Ana viu no cego a si mesma: uma pessoa sem visão realizando uma atividade mecânica, repetitiva, sem ver o que está ao redor. Ana não via o que estava fora das paredes de sua casa.

Essa reflexão a fez pensar em mudar de vida, largar tudo e ir para o mundo. Mas o amor por sua família a faz desistir dessa ideia. Ela preferiu sua vida protegida.

O título do conto “Amor” é que conduz essa mulher. Entre a epifania, vontade de viver outras vidas e experiências, e o amor aos seus familiares, ela escolheu estes últimos. Acima de tudo, Ana ama sua família e por isso escolheu viver do mesmo modo.

Além disso o mundo é representado como injusto para com as pessoas.

Notamos também o recurso da plurissignificação, que são dois termos a uma frase. Neste caso o termo que lemos e o que o autor pensa ou o que o personagem pensa.

Por exemplo:

” Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.”

Clarice Lispector

Clarice Lispector autora de Laços de Família

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk em 10 de dezembro de 1920 e morreu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977. Sua origem é ucraniana mas consagrou-se como escritora brasileira, tornando-se uma das maiores de seu tempo.

Ela publicou contos, novelas, romances, ensaios, histórias infantis e muito mais. Uma característica marcante em suas obras é acrescentar aos momentos cotidianos das personagens as epifanias. Isso as leva a refletirem.

Na obra Laços de Família os contos concentram-se em ligações familiares e em tensões entre o individual e o coletivo.

Especialmente o conto “Amor” parece retratar a vida da autora que criava dois filhos e era casada com o diplomata Maury Gurgel Valente. Infelizmente o casamento terminou em 1959, pois Clarice havia se cansado das ausências do marido que viajava muito por causa de sua profissão.

Agora que você já viu o resumo e a análise do conto Amor de Clarice Lispector, treine um pouco.

Exercícios sobre o conto Amor de Clarice Lispector

Temos exercícios resolvidos de vários temas dos vestibulares. Confira

1 – Leia um trecho do conto Amor para responder uma questão da UNIFESP 2005

Amor

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos.

A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício.

Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda.

Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia- lhe estranha como uma doença de vida. […]

De acordo com o texto, pode-se afirmar que a personagem Ana

a) sintetiza as qualidades da mulher burguesa e rica, que se responsabiliza pelo lar e em momento algum questiona suas atribuições.

b) é símbolo da mãe e da esposa de classe baixa, que vê nas tarefas do lar a verdadeira forma de ser feliz, mas almeja ser independente.

c) representa a mulher de classe média que cuida de suas tarefas, mas não sente prazer nisso, pois é incomodada por sua família.

d) é produto de uma sociedade feminista, o que se pode confirmar pela autonomia que tem para realizar suas tarefas.

e) constitui a referência do lar de classe média, no qual tem como missão a tarefa de organizá-lo e de cuidar dos familiares.

Alternativa correta: E

2 – UEL (2001) Leia o seguinte trecho do conto “Amor”, de Clarice Lispector.

“O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão – e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram”.

(LISPECTOR, Clarice. Laços de família. 11. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p. 21-2.)

Com base nesta leitura, é correto afirmar:

a) No trecho “a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir”, emerge a força do fantástico, traço tão significativo neste conto como em todos os demais contos de Laços de família.

b) No trecho “como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram”, percebe-se uma referência à súbita paixão que invade a protagonista, provocando o desequilíbrio familiar e o desejo de viver ao lado do amante.

c) No trecho “Expulsa de seus próprios dias”, revela-se o conflito da protagonista ao se defrontar, no espaço urbano, com uma cena comum que desencadeia uma reavaliação de sua vida íntima e doméstica.

d) No trecho “parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes”, destaca-se a atmosfera de mistério que provoca a aproximação entre esse conto e as histórias policiais com sua ambientação urbana.

e) No trecho “Vários anos ruíam”, sobressai uma marca destacada dos contos da autora: apresentar narrativas cuja ação se estende por uma longa duração de tempo.

Gabarito das questões sobre Amor de Clarice Lispector

1 – E

2 – C

Gostou do resumo de Amor de Clarice Lispector? Comente!

Queremos te ajudar a encontrar a FACULDADE IDEAL! Logo abaixo, faça uma pesquisa por curso e cidade que te mostraremos todas as faculdades que podem te atender. Informamos a nota de corte, valor de mensalidade, nota do MEC, avaliação dos alunos, modalidades de ensino e muito mais.

Experimente agora!

Redação Beduka
Redação Beduka
A equipe de redação do Beduka é composta por profissionais de várias formações (professores, jornalistas, filósofos), sempre prontos a oferecer os melhores conteúdos educacionais com foco no Enem e colaborar com a formação de todos os alunos. Sinta-se a vontade para deixar o seu comentário!

2 Comentários

Sisu

Enem

Matérias

Simulado

Buscador